Há uma cena comum nas aulas de redação: o professor pede a lista de conectivos e a turma anota portanto, todavia, outrossim. A lista é curta, decora rápido e dá a sensação de que a competência 4 está resolvida. Não está. A quarta das cinco competências da redação do ENEM vale 200 pontos e não pergunta quantos conectivos o candidato conhece, e sim se as partes do texto se sustentam umas nas outras.
O que a competência 4 da redação do ENEM avalia
A descrição oficial fala em demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. A cartilha do participante do Inep traduz: a competência trata da estruturação lógica e formal entre as partes do texto, de modo que frases e parágrafos estabeleçam entre si uma relação que garanta sequenciação coerente e interdependência entre as ideias. Essa articulação se faz com recursos coesivos, em especial os operadores argumentativos — termos que marcam relação de causa e consequência, de oposição, de conclusão, de comparação. Como as demais, a competência é corrigida em seis níveis, de 40 em 40 pontos.
Conectivo decorado não é coesão
O problema da lista decorada aparece de duas formas na folha. A primeira é a repetição: o mesmo entretanto abrindo três parágrafos seguidos, ou o além disso emendando qualquer ideia nova — sinal do que a grade descreve como repertório pouco diversificado de recursos coesivos. A segunda é mais séria, porque compromete o sentido: usar portanto onde não há conclusão, ou porém entre duas frases que não se opõem. O corretor lê a relação anunciada pelo conectivo e não a encontra no conteúdo. Termo raro também não pesa mais que um mas bem colocado. O que a grade valoriza é variedade que corresponda ao que o texto de fato faz.
Referenciação, a metade esquecida da competência
Coesão não se resume a emendar orações. A cartilha inclui as estratégias de referenciação: substituir termos já mencionados por pronomes, sinônimos e expressões resumitivas, ou omiti-los quando o contexto já os garante. Redação que repete o termo do tema em todas as linhas — a desinformação, a desinformação, a desinformação — perde ponto exatamente aí, e não por falta de conectivo. Trocar por o fenômeno, esse cenário, ele, ou apagar o sujeito na segunda oração são movimentos simples que costumam ficar de fora do treino porque ninguém os chama de conectivo.
Onde a nota cai de 200 para 160
A distância entre os dois níveis mais altos cabe numa ressalva curta da grade. No nível máximo, o texto articula bem as partes e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos. No nível seguinte, faz o mesmo, mas com poucas inadequações. Na prática, essas inadequações são dois ou três deslizes: um conectivo repetido, uma retomada ambígua que deixa dúvida sobre a quem o pronome se refere, um parágrafo que começa sem ligação com o que veio antes. Há ainda o descuido de articular só a entrada dos parágrafos e abandonar o interior deles, onde as frases ficam lado a lado, sem nada que as una.
Como treinar coesão sem escrever uma redação por dia
Não é preciso texto completo para treinar essa competência. Uma rotina que professores recomendam é pegar parágrafos já escritos — próprios ou das redações exemplares publicadas pelo Inep na cartilha — e marcar cada elemento coesivo: conectivo, pronome, sinônimo, elipse. O que sobra sem marcação mostra onde o texto está solto. Depois, reescrever o mesmo parágrafo trocando as conexões por outras equivalentes, o que amplia o repertório sem decoreba. Como a redação do ENEM 2026 é aplicada em 8 de novembro, no mesmo domingo das noventa questões de Linguagens e Ciências Humanas, o ganho é duplo: quem articula com naturalidade escreve mais rápido e devolve minutos à prova objetiva.
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