Três em cada quatro estudantes brasileiros já abrem uma ferramenta de inteligência artificial quando sentam para estudar, mas quase nenhum aprendeu a usá-la com quem ensina. É o que indica um levantamento da Opera divulgado neste mês: 78% dos entrevistados recorrem à IA em atividades acadêmicas, e apenas 5% dizem ter recebido orientação formal da escola ou da faculdade sobre como fazer isso. A pouco mais de dez semanas do primeiro dia do Enem 2026, a rotina de estudo mudou mais rápido do que a regra que deveria organizá-la.
O que a pesquisa da Opera mediu
O levantamento ouviu mais de 2,4 mil estudantes brasileiros, de 14 a 35 anos ou mais, de instituições públicas e privadas, por meio de formulário on-line exibido nos navegadores da própria empresa entre 17 de abril e 5 de junho deste ano. Vale a ressalva metodológica: quem respondeu foi quem já usa o navegador e aceitou participar, o que não configura amostra probabilística do conjunto de estudantes do país. Os dados foram apurados e divulgados pela empresa, não por órgão público, e servem como indicação de tendência de comportamento — não como estatística oficial de educação.
Uso diário de um lado, silêncio institucional do outro
Entre os ouvidos, 15% afirmam recorrer à tecnologia sempre que estudam e 22% dizem nunca usá-la para fins acadêmicos. Um terço já trocou o buscador tradicional pelo chatbot como primeira parada: 34% começam a pesquisa direto na ferramenta de IA ou a consultam antes do mecanismo de busca. Do lado das instituições, o quadro é de vácuo. Apenas 20% dos estudantes dizem estudar onde há política clara sobre o assunto, 32% recebem orientações informais de professores, 9% estão em instituições que proíbem o uso e 40% afirmam nunca ter recebido qualquer recomendação institucional.
Confiança alta, desconfiança na fonte
A percepção de utilidade é ampla: 71% dizem que a IA ajuda a compreender melhor os conteúdos. Ao mesmo tempo, a confiabilidade das respostas aparece como aspecto prioritário para 52% dos entrevistados, o que sugere um usuário que adota a ferramenta sem tratá-la como verdade final. Para Juliana Psaros, diretora regional da Opera no Brasil, essa leitura crítica é um sinal positivo, e a tecnologia deve apoiar, não substituir, o pensamento crítico. Ela avalia que as instituições ainda estão no início da compreensão dos impactos, porque tecnologias disruptivas levam tempo para ser incorporadas.
A resposta oficial ainda é orientação, não regra
O poder público já se moveu, ainda que sem obrigar ninguém. O Ministério da Educação publicou neste ano o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, acompanhado de um documento orientador voltado à educação básica, que trata tanto de aprender com a IA quanto de aprender sobre a IA e submete o uso ao projeto pedagógico, à equidade, à proteção de dados e à supervisão humana. São textos de caráter orientador: cabe a cada rede e a cada escola transformá-los em regra de sala de aula, o que ajuda a explicar a distância entre o que está no papel e os 40% que dizem não ter recebido orientação nenhuma.
O que o dado significa para quem faz o Enem 2026
A pesquisa mede adoção, não desempenho: nenhum dos números diz se quem estuda com IA vai melhor ou pior na prova. E o exame não mudou de forma por causa disso — segue com questões objetivas nas quatro áreas e redação, aplicadas nos domingos de 8 e 15 de novembro, com nota calculada pela TRI. Na prática, a ferramenta resolve a etapa da explicação, quando o conteúdo não entrou; a etapa seguinte, a de resolver item atrás de item dentro do tempo cronometrado, continua dependendo do candidato. Quem usa IA sem orientação tende a parar na primeira etapa e confundir entender a matéria com saber resolvê-la sob pressão.
Matéria com informações de Giulya Vasconcellos, do TechTudo (25/8/2026), sobre pesquisa realizada pela Opera, e do documento orientador do MEC sobre inteligência artificial na educação básica. Post sem imagem por não haver material com licença aberta confirmada.
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