Uma nota técnica divulgada em 4 de setembro pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) sustenta que o Provão Paulista — exame que dá acesso a vagas na USP, na Unicamp, na Unesp e nas Fatecs — foi alvo de fraude sistêmica na edição de 2025. A conclusão vem dos microdados de três anos do exame, obtidos por Lei de Acesso à Informação. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo contesta o diagnóstico e afirma que resultado estatisticamente atípico, isoladamente, não comprova fraude.
O que a análise dos microdados do Provão Paulista encontrou
Os pesquisadores compararam o desempenho dos mesmos estudantes nas edições de 2023, 2024 e 2025, ciclo completo da avaliação seriada. Entre os concluintes do terceiro ano em 2025, o estudo identificou 4.305 resultados individuais classificados como atípicos: saltos de nota considerados extraordinariamente improváveis de uma edição para outra. Assinam o documento Leonardo Crochik (IFSP), Ewout ter Haar (USP), Fernando Cássio (USP), Márcia Aparecida Jacomini (Unifesp) e Aline Michelle Dib (Univesp). Segundo a nota, padrões equivalentes não aparecem nas Etecs nem nas escolas municipais que participam do mesmo exame — o que, para os autores, afasta a hipótese de flutuação estatística comum a toda a rede.
A concentração em 50 escolas é o centro do argumento
O número absoluto importa menos do que sua distribuição. Metade dos 4.305 casos estava concentrada em apenas 50 escolas, 1,4% das unidades estaduais participantes. Em 44 delas, mais de 40% dos estudantes apresentaram desempenho atípico, proporção que passa de 90% em alguns casos. A concentração também aparece no mapa: metade dos resultados discrepantes saiu de oito das 91 Unidades Regionais de Ensino, com pico de 28,6% em uma, no interior paulista. Para a REPU, deslocamentos coletivos e abruptos de escolas inteiras para as faixas mais altas de nota não se explicam por perfil socioeconômico, mudança na composição do alunado ou presença de alunos excepcionais.
O efeito sobre a convocação para USP, Unicamp, Unesp e Fatecs
O Provão Paulista é via de ingresso alternativa ao vestibular tradicional nessas instituições, e é aí que o estudo localiza o dano. Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados para matrícula no primeiro semestre de 2026, 11,3% vinham de escolas em que mais de 20% dos resultados individuais foram classificados como atípicos. Os autores registram que os dados não permitem apontar quais vagas foram ocupadas de forma irregular, nem atribuir fraude a nenhum estudante em particular — a análise é estatística, não individual. O argumento é outro: nota inflada em uma escola reordena a lista inteira e desloca candidatos de todas as demais.
A resposta da Seduc-SP e da Vunesp
Em nota, a Secretaria da Educação afirmou que associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas, é uma “correlação temerária”, e informou ter cruzado os dados com os do Saeb, encontrando evolução consistente em matemática em parte das escolas comparadas. A Fundação Vunesp, responsável pela aplicação, disse adotar procedimentos de segurança em todas as etapas sob sua responsabilidade. A REPU, por sua vez, recomenda revisão integral dos procedimentos antes da edição de 2026, auditoria permanente dos resultados, participação de USP, Unicamp, Unesp e Centro Paula Souza na revisão da segurança e fim do uso do exame para bonificar ou punir profissionais da rede.
O que muda para quem vai prestar o exame
Para o estudante da rede estadual paulista, nada foi alterado até agora: não há anulação de resultado, revisão de convocação nem mudança anunciada no calendário, e a divergência entre pesquisadores e secretaria segue aberta. O que a discussão escancara é o risco de depender de uma porta de entrada só. Quem tem o Provão Paulista como aposta principal continua com o Enem em 8 e 15 de novembro e com os vestibulares próprios de USP, Unicamp e Unesp no mesmo calendário — e é a nota construída nessas provas que não depende do que acontece na escola ao lado.
Matéria com informações da nota técnica Fraude sistêmica no Provão Paulista, da Rede Escola Pública e Universidade (REPU), publicada em 4 de setembro de 2026, e da reportagem do Metrópoles, que ouviu a Seduc-SP e a Fundação Vunesp. Post sem imagem por não haver material com licença aberta confirmada.
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