Entre os mais de três milhões de participantes que escreveram a redação do Enem 2025, dez tiraram mil. É o menor número da história do exame, e ele não veio sozinho: a média nacional da prova recuou cerca de 6% em relação a 2024. A dois meses da aplicação de 8 de novembro, a régua que produziu esses números é a mesma que vai corrigir os textos desta edição.
Dez notas mil, o menor número da série histórica
A série do Inep mostra uma curva descendente longa. Em 2009, primeiro ano do exame reformulado, 2.794 redações alcançaram os mil pontos. Em 2015 foram 104; em 2020, 28; em 2022, 32. Vieram então sessenta em 2023, doze em 2024 e dez em 2025, duas edições seguidas em patamar historicamente baixo. Dos dez textos perfeitos do ano passado, oito saíram do Nordeste e do Sudeste, com dois cada na Bahia, no Ceará, no Rio de Janeiro e em Pernambuco. Em um exame com quase cinco milhões de inscritos, a nota máxima deixou de ser meta razoável para planejar estudo.
A queda não ficou restrita ao topo
Levantamento feito a partir dos microdados divulgados pelo Inep aponta recuo de cerca de 6% na média das notas de redação, com queda de 6,8% na rede pública e de 4,33% na rede privada. O efeito mais visível está no afunilamento da faixa alta: menos participantes acima de 900 pontos e menos escolas com média acima de 700. Não é um punhado de textos excepcionais que deixou de aparecer, e sim um deslocamento de toda a distribuição para baixo. Como a concorrência do Sisu se ajusta ao desempenho do conjunto, o impacto na nota de corte tende a ser menor do que o susto sugere; o que muda é a dificuldade de usar a redação como diferencial.
O que o Inep afirma e o que os professores observam
O instituto sustenta que não alterou os critérios de correção e atribui o resultado ao uso disseminado de modelos prontos e de repertórios genéricos decorados na preparação. Professores de redação leem o mesmo dado de outro jeito e enxergam avaliadores menos tolerantes com texto formulaico e com tangenciamento do recorte proposto. Os números dão munição às duas leituras. A competência 2, que cobra compreensão da proposta e repertório aplicado ao tema, foi a que mais recuou, com queda de 11,1% na média — exatamente onde a citação encaixada à força aparece.
Os 211 mil textos que pararam antes da correção
Outro número da mesma edição dimensiona o problema: 211.859 redações receberam zero, perto de 6% de quem compareceu ao primeiro domingo. As causas previstas na cartilha do participante são quase todas evitáveis: fuga completa ao tema, texto com até sete linhas manuscritas, folha oficial em branco porque o rascunho não foi transcrito a tempo, desrespeito ao formato dissertativo-argumentativo, letra ilegível, marca de identificação no corpo do texto. Nenhuma tem relação com argumentação fraca. São perdas de procedimento, e custam os mesmos mil pontos que uma redação ruim.
O que isso cobra de quem escreve em 8 de novembro
A leitura prática desses dados é menos dramática do que parece. Perseguir a nota mil perdeu sentido como meta individual; sustentar uma redação entre 800 e 900 continua sendo o que aprova em curso concorrido. O caminho apontado pelos próprios números é abandonar o repertório de bolso, ler a proposta até entender o recorte antes da primeira linha e reservar tempo para transcrever o texto na folha oficial. Nas cinco horas e meia do primeiro domingo, a redação divide o relógio com 90 questões objetivas de Linguagens e Ciências Humanas, e é essa disputa por tempo que decide quantas linhas sobram no fim.
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